"A Eneida é um dos grandes poemas da latinidade, e não só da latinidade, mas da humanidade. Poema nacional, escrito de propósito para celebrar as glórias e o passado de Roma — diz-se mesmo que por direta encomenda do imperador Augusto, protetor das Artes e das Letras —, excede as intenções do próprio autor, e os desejos de quem o incitou a escrevê-lo, pelo profundo lirismo de muitas das suas páginas. Nessa narrativa épica revive, observa um crítico: «Roma inteira, a história de Roma desde as suas origens até à batalha de Actium», e ressuscita esplendidamente, «a lenda das velhas raças que tinham originariamente povoado o solo italiano, a religião romana (isto é, naquela época, a religião pagã), os deuses indígenas e os deuses helénicos latinizados, os costumes, e os usos públicos e privados do povo romano.» Tudo isso, evocado e contado num estilo perfeito e de comovente e persuasiva simplicidade, se encontra n’A Eneida. Virgílio levou trinta anos a compor os doze mil versos do poema célebre. Não perdeu nunca, porém, durante tão largo espaço de tempo, o fio condutor da sua epopeia, nem a emoção íntima do entusiasmo do poeta pela terra natal."
A tempestade
"Vindo de Troia, saqueada, incendiada e destruída pelos Gregos — Troia era situada na Ásia Menor, como se sabe — Eneias e os seus companheiros tinham aportado à Sicília. Da Sicília ei-los a caminho da Itália. Mar tranquilo, vento brando, céu azul. Do alto Olimpo, Juno contemplava essa viagem tranquila e desesperava-se. Pois quê? Os Troianos conseguiriam alcançar as terras da Itália, fundar Roma, como estava disposto já pelo Destino, e nada de mau lhes aconteceria antes? Não, não podia ser! E então Juno, sem mais delongas, voa até à Eólida, pátria dos ventos, onde os ventos e os temporais estão todos presos e seguros em cárceres fortíssimos, à ordem do seu rei, Éolo. Éolo não os poupa a castigos e reprimendas constantes, de tal modo eles são rebeldes e impetuosos. De outro modo, revoltas graves estalariam a cada momento.
Chegada ali, Juno suplica ao despótico soberano que desencadeie um furacão bravíssimo, capaz de submergir e destroçar as naus de Eneias que ao longe navegam, calmas. Logo Éolo, o malvado, bate com o seu bastão nas rochas onde estão escavados os cárceres dos ventos. Abre-se a prisão e todos os ventos saem, zunindo, bufando, mugindo, galopando, correndo e erguendo ao ar ondas espumantes e alterosas. Rasga-se o mar em abismos sem fundo. Tudo é tumulto e cólera dos elementos. A frota de Eneias é um joguete na agitação desvairada das ondas.A luz do Sol esconde-se. Nuvens espessas e negras cobrem o céu. Trevas densas envolvem tudo, terra, água e firmamento. Os marinheiros gritam, quase nem ouvindo a voz dos pilotos. Sibila o vento nas enxárcias das naus. E do norte e do sul, do ocidente e do oriente, rasgam o ar em estrondos horríveis e sopros infernais, e alastra e cresce a procela. Eneias e os seus companheiros julgam que não tardará muito a hora aflitiva da morte…
O perigo é tão grande, que o próprio Eneias empalidece e treme no desespero de não poder logo vencê--lo! Suspira em vão, lembrando os horrores do cerco de Troia, receando que outros e piores lhe sucedam. Felizes os Troianos!, exclama, que ficaram ali sepultados debaixo das muralhas soberbas da sua terra natal, por esta combatendo e morrendo sob o olhar orgulhoso e piedoso dos seus pais! Antes esse destino heroico do que perder-se, insepulto, no pélago, no abismo negro e hiante do mar!...
Mas, gritante e lívido, enquanto Eneias ergue ao Céu as suas queixas, a tempestade aumenta, e o aquilão, batendo furiosamente nas velas pandas dos barcos, aumenta ainda o ímpeto devastador. Levanta as vagas contra a amurada das naus, rasga as velas, quebra os remos, atira os navios ao fundo, levanta-os ao ar, junta as ondas e as espumas em montanhas de água, sobre cujas cristas dançam vertiginosamente as embarcações. É o naufrágio certo... O vento impele três dos navios contra os rochedos, outros encalham na areia. Um dos melhores pilotos da frota, o fiel Oronto, é cuspido da popa do seu barco, que se afunda, e morre logo afogado. Os outros têm a mesma sorte. E todos a teriam também se Neptuno, Deus do Mar, lá do sossegado e fundo retiro em que vive no mais oculto lugar dos seus domínios, não se apercebesse enfim de que a procela agitava temerosamente a superfície do seu reino, do reino sem fim das águas do mar. Ergue a majestosa cabeça, segura nas mãos o tridente, símbolo da sua majestade, e vê então a frota troiana dispersa ao sabor do temporal, como se Terra e Céu conspirassem contra ela. Neptuno adivinha, reconhece imediatamente, naquele horrível espetáculo, a vontade cruel da vingativa irmã Juno."

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