quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A Eneida

     "A Eneida é um dos grandes poemas da latinidade, e não só da latinidade, mas da humanidade. Poema nacional, escrito de propósito para celebrar as glórias e o passado de Roma — diz-se mesmo que por direta encomenda do imperador Augusto, protetor das Artes e das Letras —, excede as intenções do próprio autor, e os desejos de quem o incitou a escrevê-lo, pelo profundo lirismo de muitas das suas páginas. Nessa narrativa épica revive, observa um crítico: «Roma inteira, a história de Roma desde as suas origens até à batalha de Actium», e ressuscita esplendidamente, «a lenda das velhas raças que tinham originariamente povoado o solo italiano, a  religião romana (isto é, naquela época, a religião pagã),  os deuses indígenas e os deuses helénicos latinizados, os costumes, e os usos públicos e privados do povo romano.» Tudo isso, evocado e contado num estilo perfeito e de comovente e persuasiva simplicidade, se encontra n’A Eneida. Virgílio levou trinta anos a compor os doze mil versos do poema célebre. Não perdeu nunca, porém,  durante tão largo espaço de tempo, o fio condutor da sua epopeia, nem a emoção íntima do entusiasmo do poeta pela terra natal." 
 


                                                                 A tempestade

      "Vindo de Troia, saqueada, incendiada e destruída pelos Gregos — Troia era situada na Ásia Menor, como se sabe — Eneias e os seus companheiros tinham aportado à Sicília. Da Sicília ei-los a caminho da Itália. Mar tranquilo, vento brando, céu azul. Do alto Olimpo, Juno contemplava essa viagem tranquila e desesperava-se. Pois quê? Os Troianos conseguiriam alcançar as terras da Itália, fundar Roma, como estava disposto já pelo Destino, e nada de mau lhes aconteceria antes? Não, não podia ser! E então Juno, sem mais delongas, voa até à Eólida, pátria dos ventos, onde os ventos e os temporais estão todos presos e seguros em cárceres fortíssimos, à ordem do seu rei, Éolo. Éolo não os poupa a castigos e reprimendas constantes, de tal modo eles são rebeldes e impetuosos. De outro modo, revoltas graves estalariam a cada momento. 
   Chegada ali, Juno suplica ao despótico soberano que desencadeie um furacão bravíssimo, capaz de submergir e destroçar as naus de Eneias que ao longe navegam, calmas. Logo Éolo, o malvado, bate com o seu bastão nas rochas onde estão escavados os cárceres dos ventos. Abre-se a prisão e todos os ventos saem, zunindo, bufando, mugindo, galopando, correndo e erguendo ao ar ondas espumantes e alterosas. Rasga-se o mar em abismos sem fundo. Tudo é tumulto e cólera dos elementos. A frota de Eneias é um joguete na agitação desvairada das ondas.A luz do Sol esconde-se. Nuvens espessas e negras cobrem o céu. Trevas densas envolvem tudo, terra, água e firmamento. Os marinheiros gritam, quase nem ouvindo a voz dos pilotos. Sibila o vento nas enxárcias das naus. E do norte e do sul, do ocidente e do oriente, rasgam o ar em estrondos horríveis e sopros infernais, e alastra e cresce a procela. Eneias e os seus companheiros julgam que não tardará muito a hora aflitiva da morte… 
     O perigo é tão grande, que o próprio Eneias empalidece e treme no desespero de não poder logo vencê--lo! Suspira em vão, lembrando os horrores do cerco de Troia, receando que outros e piores lhe sucedam. Felizes os Troianos!, exclama, que ficaram ali sepultados debaixo das muralhas soberbas da sua terra natal, por esta combatendo e morrendo sob o olhar orgulhoso e piedoso dos seus pais! Antes esse destino heroico do que perder-se, insepulto, no pélago, no abismo negro e hiante do mar!... 
     Mas, gritante e lívido, enquanto Eneias ergue ao Céu as suas queixas, a tempestade aumenta, e o aquilão, batendo furiosamente nas velas pandas dos barcos, aumenta ainda o ímpeto devastador. Levanta as vagas contra a amurada das naus, rasga as velas, quebra os remos, atira os navios ao fundo, levanta-os ao ar, junta as ondas e as espumas em montanhas de água, sobre cujas cristas dançam vertiginosamente as embarcações. É o naufrágio certo... O vento impele três dos navios contra os rochedos, outros encalham na areia. Um dos melhores pilotos da frota, o fiel Oronto, é cuspido da popa do seu barco, que se afunda, e morre logo afogado. Os outros têm a mesma sorte. E todos a teriam também se Neptuno, Deus do Mar, lá do sossegado e fundo retiro em que vive no mais oculto lugar dos seus domínios, não se apercebesse enfim de que a procela agitava temerosamente a superfície do seu reino, do reino sem fim das águas do mar. Ergue a majestosa cabeça, segura nas mãos o tridente, símbolo da sua majestade, e vê então a frota troiana dispersa ao sabor do temporal, como se Terra e Céu conspirassem contra ela. Neptuno adivinha, reconhece imediatamente, naquele horrível espetáculo, a vontade cruel da vingativa irmã Juno."

Assobiando à Vontade

  

     Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas. E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para o outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estribos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressadamente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pelas casas de chá, para matar o tempo de qualquer maneira, ver caras conhecidas, cumprimentar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora de jantar.
     A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas penduradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num cantinho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborrecido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viajavam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzinhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão atirar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafustava até chegar ao carro? Que fazer senão empurrar, furar, pisar e barafustar também?
       O carro seguia morosamente e repleto como os outros. Felizmente, ainda havia alguns homens correctos na cidade e algumas mulherezinhas que conheciam o seu lugar. Só graças a isso as senhoras que tinham arriscado os seus sapatos e os seus chapéus naquela refrega e alguns cavalheiros respeitáveis conseguiam sentar-se.
     Nos primeiros momentos de viagem, as pessoas voltavam-se nos bancos, preocupadas, tentando ver se o marido, uma amiga, um filho, não teriam ficado em terra. Os que seguiam de pé ousavam dar um passo no interior do carro, a ver se teria ficado algum lugar vago por acaso. Havia logo protestos na plataforma. Depois as pessoas acomodavam-se o melhor que podiam, punham os braços no ar para livrar os embrulhos do aperto, fechavam bem os casacos e as malas onde levavam o dinheiro, o condutor puxava energicamente o cordão da campainha muitas vezes, lotação completa, e o carro arrastava-se em silêncio.
      Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado, começavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmente mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da mala e passavam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra perdera uma luva na confusão. Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olhavam umas para as outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignidade que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.
     Nas curvas, as rodas chiavam nas calhas, debaixo do grande peso. Silêncio enfim -embora de vez em quando cortado pela campainha, quando alguém tinha a triste ideia de querer descer, pelo desdobrar dos jornais, pela voz dos populares, encaixados na plataforma da frente.
     Tudo voltara à normalidade. A marcha do carro, a cobrança dos bilhetes, a separação entre as pessoas, que rigorosamente não conseguiam separar-se umas das outras um centímetro que fosse. E, assim, morosamente, por curvas e rectas, por ruas e praças, aquele carro cumpria o seu destino de acarretar gente e ser insultado, numa das várias linhas que ligavam o centro da cidade aos bairros relativamente novos, onde a separação entre a chamada classe média e as camadas mais baixas da população não fora ainda convenientemente estabelecida.
     Em dada altura, porém, na plataforma de trás levantou-se burburinho. Protestos. Indignação. Cabeças voltaram-se no interior do carro. E viu-se um homenzinho a empurrar toda a gente e a dizer que havia lugares à frente, que o deixassem passar. Em vão lhe asseguravam que não havia lugar nenhum, que não podia passar, que não fosse bruto. O homem empurrava e teimava que havia lugares à frente. Tanto empurrou que furou. Tanto furou que conseguiu entrar no interior do eléctrico, avançou e foi sentar-se num lugar de lado que estava efectivamente vago lá à frente, ao lado duma senhora por sinal opulenta.
       Foi um espanto geral e silencioso. Ninguém tinha reparado no lugar. E menos que ninguém, como é fácil de compreender, a própria senhora opulenta. Todos os atrevidos têm sorte.
       O homem, que usava um chapéu coçado e um sobretudo castanho bastante lustroso nas bandas, não se sentou propriamente. Enterrou-se no lugar, com as mãos enfiadas pelas algibeiras dentro. Que sujeito! Devia ser mais novo do que parecia por causa do cabelo grisalho e da barba por fazer. A senhora opulenta franziu a testa e remexeu-se no lugar, se assim se pode dizer, como quem procura ocupar menos espaço. Na verdade, apenas se instalou melhor. A sua intenção era fazer o homenzinho reparar na inconveniência da atitude que tomara. Mas ele não viu nada disso ou fingiu que não viu. Olhou vagamente as pessoas que tinha na frente, estendeu os lábios e começou a assobiar. A assobiar muito à vontade no interior do carro!
     Primeiro, foi um assobio baixinho, pouco seguro, imperceptível quase. Depois, a pouco e pouco, o sujeitinho entusiasmou-se. E o assobio aumentou de intensidade. Ouvia-se já em todo o eléctrico. Os passageiros, que tinham recuperado com tanto custo a sua dignidade, fingiam que não davam pelo homem nem pelo assobio. E sossegaram quando o condutor se dirigiu ao recém-vindo. Ia aconselhá-lo a calar-se, com certeza. Mas qual! Com o maço dos bilhetes na mão e de alicate espetado, limitou-se a dizer: «O senhor?» O passageiro tirou a mão da algibeira e, sem deixar de assobiar, estendeu-a com a palma voltada para cima. Esperou que lhe levassem a moeda, recebeu o bilhete e tornou a enfiar a mão pela algibeira dentro. Toda a gente seguia a cena, interessada. Mas, quando o homem olhou as pessoas, ao acaso, voltaram todas os olhos como se ele afinal não existisse.
      O assobio, umas vezes, era baixo, mal se ouvia, outras vezes, alto, muito alto, com trinados ridículos e irritantes. Ninguém sabia o que ele assobiava. E o homem também não. Qualquer coisa que lhe apetecia que fosse assim mesmo.
      Às vezes repetia os sons como um estribilho. Outras vezes, porém, a maior parte das vezes, passava a novas combinações, ora brandas, ora violentas, sem querer saber para nada das que ficavam para trás.
     As pessoas começavam a olhar umas para as outras à socapa. Já se tinha visto coisa assim? Um ou outro cavalheiro levantava os olhos do jornal, franzia a testa, fitava com dureza o homem do chapéu coçado e sobretudo castanho, na esperança de que ele, envergonhado, parasse com aquilo. A senhora opulenta, no auge do espanto, nem se atrevia a olhar para lado nenhum, vexadíssima porque, sem ter culpa nenhuma, se encontrava em plena zona do escândalo. A que uma pessoa está sujeita!
       E, no silêncio do carro, o assobio aumentava de volume. Talvez, no fundo, aquele gorjeio ridículo não fosse desagradável de todo. Simplesmente, um eléctrico não é o local mais próprio para exibições daquelas. Porque não interferiria o condutor? O condutor era a autoridade do carro. Porque não interferiria? Estava-se a ver. Era tão bom como ele. A verdade, porém, é que não se conhecia nenhum regulamento que impedisse os passageiros de assobiar. Colados aos vidros do eléctrico, havia papéis que proibiam fumar, cuspir no carro. Era proibido abrir as janelas durante os meses de Inverno. Mas nem uma palavra a respeito de assobios.
     De repente, uma criança que ia sentada junto duma janela e já se sentia enfastiada de olhar para a rua interessou-se pelo homem. Achava-lhe tanta graça, com o seu chapéu coçado, o seu sobretudo castanho, o seu assobio... Era uma criança muito pálida, de cabelos louros e encaracolados, vestida de azul. Interessou-se tanto pelo homem que começou a bater palmas. Mas uma senhora nova e bonita, que ia ao lado dela, segurou-lhe as mãos com gentileza e afastou-lhas. Devia ir calada e quietinha. Era muito feio fazer barulho no eléctrico. Uma menina bonita não fazia barulho. «Que disse eu à minha filha?» No entanto, a senhora nova e bonita não antipatizava com o homem. Olhava os embrulhos de papel vistoso que trazia nos joelhos e pensava: se não pudesse mais e começasse também a assobiar? No fundo, admirava a sem-cerimónia do homem do chapéu coçado. Não seria adorável ela própria, uma senhora casada e mãe de uma garota de cinco anos, começar a assobiar num eléctrico se lhe apetecesse? Quando era da idade da filha, a senhora bonita ia muitas vezes ao campo vestida com coisas velhas para poder atirar-se para a relva à vontade. Tinha uma voz muito suave e muito fresca, gostava de fazer precisamente aquilo que uma menina bonita não deve fazer Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo, atiravam-na ao ar E ela ria, ria, ria até ficar sufocada. A mãe dizia «Pronto, pronto, vamos a ter juízo, não se ri assim dessa maneira» E, quanto mais lho diziam, mais lhe apetecia rir, rir, rir.
      De vez em quando, um passageiro saía. A plataforma do carro ia-se esvaziando. E, pouco a pouco, os que ficavam foram-se habituando àquele estúpido assobio Os cavalheiros tinham esquecido os jornais Algumas senhoras sorriam Já se vira um disparate assim? Principalmente a senhora opulenta não podia mais. Apertava os lábios. Sentada num banco de lado, encontrava os olhos de toda a gente. Era irresistível. E a senhora bonita pensava em ar livre e nos tempos da infância. Na escola aprendera a assobiar e a lançar o pião. Havia vozes que tinham ficado dentro dela. «Uma menina a assobiar, Nini?»
     Em dada altura, o homem, sem deixar de assobiar, levantou-se e puxou o cordão da campainha. Era um homenzinho insignificante, ainda novo e já de cabelos grisalhos, chapéu coçado, sobretudo castanho muito lustroso nas bandas. Mas havia nele uma indiferença soberana pelo eléctrico inteiro Toda a gente o olhava Com desprezo? Com ironia? Com inveja? Abriu a porta, fechou--a e saltou com o carro ainda em andamento.
     As pessoas voltaram-se então umas para as outras, não resistiram mais e riram mesmo. Que homenzinho patusco! Desculpavam-se, explicavam-se sem palavras Entendiam-se Um minuto de simplicidade e simpatia iluminou-as A criança que batera palmas limpou com a mão o vidro embaciado da janela à procura do estranho passageiro Viu-o atravessar a rua, seguir pelo passeio agarrado às casas, desaparecer.
      Só então a senhora nova e bonita, que era a mãe da criança, abriu os olhos. Ninguém hoje lhe chamava Nini. Nini era a filha Ela agora é que dizia à filha «Uma menina a assobiar, Nini! Uma menina bonita não faz barulho.»
                    Ficara nos lábios e nos olhos de todos um sorriso de bondosa ingenuidade o Depois esse sorriso foi-se apagando Morreu As pessoas tomaram consciência da sua momentânea quebra de compostura Lembraram-se dos seus embrulhos, dos seus anéis, dos seus jornais Que patetice! Não havia outra palavra para aquilo Que patetice! Os cavalheiros recomeçaram a ler os títulos das notícias. As senhoras deram um toque nas golas dos casacos A criança tornou a olhar para a rua.
Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade. 

                                                                        Mário Dionísio, in O dia cinzento e outros contos

 (acedido em 22.01.2015)